18.6.09

Maré

Todos esses sais dos dias corridos. Essas juras, essas promessas que os minutos sacanas fazem dentro da gente. Esse jeito cego de arriscar tudo. De jogar tudo. De dormir no precipício.
O frio na barriga de olhar pra frente e ver a cortina do palco fechada. Mas ainda assim o desejo dos aplausos. E o pavor das vaias.
Essa vontade que não termina. E que não se sabe de que, de quem, de quando.
Essas manias que a vida tem de atar e desatar nós apertados quando o tempo engasga.
Esse truque mudo que a gente tem de não desistir nunca.
Se te parece pouco o que vês em volta, olha de novo.
De algum canto desse buraco escuro pula um rio, um mar. Alguma água que te leve dessa terra, nada mãe.
Confia no teu redor que, se não parece muito amigo, te engana pra te alcançar.
Confia nas marés, nas luas, nos sinais. Confia em tudo que não se sabe explicar.
Porque é daí que vem tudo que a gente inventa e costura com mãos de sonho.

18.12.08

profilaxia

será que hoje
você pode
me dar um abraço
bem apertado
e dizer assim no meu ouvido
"a vida é grande, vamos lá"
e me segurar forte, forte
com medo mesmo que eu saia
mas eu não saio
e você fica
e me diz coisas
e me convence
que isso tudo vale à pena
.

4.10.08

um mundo pra chamar de meu.

27.5.08

estômago

começa na ponta do pé. e fica lá um tempo, descansando da vida, dos medos.
paquerando os dedos e o peito do pé, essa coisa que planta a gente no mundo.
às vezes pega pelo cabelo também. e pelas pernas. muitas vezes pelas pernas.
mas não é nem na cintura e nem na nuca.
não é naquela curva do pescoço. não é nas costas. não é na boca.
é bem no meio da minha barriga que você mora.

1.4.08

primeiro ato

pra falar da alma queria ter dedos de mel.
queria a sutileza de uma pele clara, sem passado, sem calo.
queria ser sem partida nem chegada: eu, desenlaçada.
senhora de mim, pedaço de rua sem estrada.
pra falar da alma queria eu ser solilóquio, diálogo interrompido, monólogo das águas.
eu, que sou só gole.
antes assim: perpetuada.
minha mise-en-scene construída. cortina tombada.
pra falar da alma eu queria ter nas mãos o que deixei na casa antiga: meus anos, minha fé, minha mulher adormecida.
mas o que vejo é só isso: escombros, sangue e músculo.

17.10.07

naufrágio

- amanhã eu te ligo. tchau.

você fecha a porta e já não vê o rosto dela. você olha para a porta fechada por uns dez minutos, mais ou menos. você abre a porta. ela não está mais lá.
dentro de casa você anda em círculos. esbarra na bagunça vez por outra. são cadernos, caixas, papéis rasgados, cadeiras tombadas.
você caminha em direção ao banheiro branco. ele é frio e vazio. você liga a torneira e deixa a banheira encher até quase transbordar. mas você fecha e ela não transborda.
dentro da banheira a água está quente. o seu braço se estica e, na volta, traz com ele a lâmina, que não estava muito longe e não parece muito limpa. você olha para o retângulo prateado. procura o seu reflexo naquele pequeno espelho portátil. está embaçado.
você não está assustado. você está cansado. e com um pouco de frio conforme a água vai esfriando. você deixa que a lâmina crave sua pele desavisada que, de susto, sangra.
você sente dor. você quer ficar. mas ainda assim você morre.
nessa banheira vermelha de sonhos que te matam.


24.10.06

ainda que tarde

ainda era cedo quando levantei. olhai para aquelas nuvens no céu; pareciam ter um novo tom hoje. o branco, que sempre foi bem branco, hoje tinha uma ponta de cinza amarelado. e nas curvas de cima não pareciam mais com algodões. seria mais fácial compará-las com fumaça logo, já que a dimensão sólida havia se perdido.
fiquei muito tempo deixando os olhos se cansarem dos seus lentos movimentos.
quanto demoraria uma nuvem para atravessar meus pensamentos?
pra onde vai tudo isso?
essa possibilidade de chuva, essa tormenta, os furacões.
porque aqui eles nunca caem, já repararam?
decidi, então, investigar essa coisa do sumiço.
pra onde vão as nuvens, quando não chovem?

foi então que passou pela rua o caminhão de lixo. muito barulho, mas nem assim eram trovões.
os trovões estão lá, escondidos. em algum lugar perto de onde as nuvens tecem o céu.

quando eu crescer eu quero um vestido-nimbo.